sábado, 5 de fevereiro de 2011

Dia mau.

Da janela do meu quarto chove....

Lá fora o mundo e aqui estou eu num outro tão à parte e tão só. Sentada no caixilho vejo a cidade lá fora, tão grande e numerosa, cheia de gente na sua vida, vidas atarefadas sem tempo para olhar para trás. Encolhida, com os joelhos ao peito penso em quão pequena aqui me sinto, sem niguém que me ampare ou acompanhe....

Um casal passa na rua, lá em baixo tão minúsculos que estão. Dão a mão e sorriem... entreolham-se por momentos e voltam a sorrir.... uma criança chora, deixa cair o brinquedo numa poça enlameada.... a mãe corre em auxilio, adivinho as palavras que acompanham o gesto que lhe enxuga as lágrimas... um homem passa a correr com o cão... de phones nos ouvidos passa apressado pelo casal feliz e quase se esbarra com a mulher que corre a acudir o desalento da criança....

a rua tem vida, cá de cima sou mera espectadora, vejo passar a vida sem senti-la passar por mim.... a cidade move-se, cheia de gentes cada uma com sua vida plena, recheada de alegrias e dissabores partilhados por amigos, familia, amantes... corações que se partem, uniões que se fortificam... toda a gente tem um rumo... eu sinto-me à deriva.... Aqui sentada, o movimento da rua deixa-me zonza... descanso os olhos e deito a cabeça nos joelhos.... olho à direita e vejo a minha vida.... uma cama desfeita, livros no chão e na mesinha de cabeceira... o telemóvel silencioso, já quase que nem o uso... uma garrafa de água no chão... roupa pelos cantos do quarto.... não há cores, é tão frio, tão vazio....

Se houvesse o sol iria alto mas ainda estou de vestido de noite... cinzento como o dia, transparente como a minha presença lá fora. Não quero sair, não quero olhar, não quero encarar a realidade não a minha mas a dos outros....

Mais um cigarro, a vida são dois dias, não há nada nela para mim, nada que eu possa fazer por mim, sou vitima de mim mesma e de todos... o som do cigarro a arder faz-me companhia, lá fora ainda chove, aqui dentro também...

Dia após dia chove, dia após dia vejo o dia passar na tentativa vã que amanha seja melhor, outra realidade, mas ela não muda. Traz esperanças de mudanças mas a desilusão anda de mão dada comigo e não me quer largar... farta do engodo, do logro da esperança um dia há ser demais... tenho a certeza, que um dia não irei chorar mais, tenho a certeza que um dia, na plenitude da minha solidão não vou ser feliz, tenho a certeza que um dia não viverei mais por minha porópria vontade....

tinham razão afinal o problema sou eu, sou factor de infelicidade dos outros... tudo o que toco se desfaz, todos que me conhecem me deixam, o mal é meu só pode, a sentença de uma vida destinada ao falhanço, não tenho mais armas para lutar...

Apago o cigarro, olho para o telemovel, ainda nada e outra vez nada... não há nada para mim... então decido. Ainda chove e choro e penso.... o mundo não pára se eu cá não estiver, quem sentirá sequer que uma vida se perdeu... deito-me na cama e finalmente sinto o efeito... agora já não há retorno.... fecho os olhos e sonho que aquela mulher que ri com o olhar sou eu, sonho que aquele beijo do casal, no casal estava eu, sonho que aquela criança é minha e há algo de mim a perpetuar-se, fecho os olhos e sonho que sou a vida lá em baixo a passar.

Já não chove e não choro, sinto dificuldade em respirar... é verdade, vejo a vida perante os meus olhos, tudo passa tão rápido mas tão devagar... tão pouco que ainda fiz ou vi... quem sou eu afinal... agora é tarde não sou mais que um corpo inanimado estendido... cabelo desalinhado, telemóvel perto do rosto... ninguém ligou, continuo só.... caiu uma árvore da floresta que ninguem viu ou ouvir tombar... lá fora sai finalmente o sol de entre as nuvens e a vida continua.....

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