Dizem que é bom recordar, dizem que recordar é viver.
Mas e se então, no percurso da vida, tudo aquilo que me faz recordar não traz nada senão um punhado de lágrimas, dor e tristeza do que foi mas não devia ter sido, do que podia ter sido mas não foi, tendo em conta que hoje sou reflexo do que fui?
Mas quem sou afinal? Passados anos mantêm-se a luta interna, o querer separar o eu de dentro de mim; a vontade de espreitar a que sabe ser outra pessoa, o que sente uma outra alma, como se vive numa outra pele.
Renegar a minha existência não passa porém de um absurdo. Prefiro existir com alma incessante do que não viver sequer. Encontrar-me no meio de quem devo ser, queria ser ou queriam que fosse parece-me uma factura a pagar por respirar apenas.
Já não sou quem fui, de olhos bem abertos suspiro por os ter tido fechados durante tanto tempo...não me arrependo de nada... tudo o que vivi foi bem real, bem sentido....
Recordo com saudade a inocência e com mágoa a incerteza no saber estar....
Queria apenas poder voltar atrás, não para alterar o meu fado, mas para poder avisar-me a mim mesma, como num sonho premonitório, não me deixar sofrer tanto.... já que um dia tudo chega ao fim...
O baralho de cartas desmonora-se e num instante estás só.... sem saber a que naipe pertences ou se sequer sabes jogar as cartas certas... até porque o jogo já é outro....
Não sei o que me espera o amanhã... não, não sou fútil e sem ambições.... o baralho a que pertenci afinal não era meu... resta-me tentar reconstruir-me e renascer, qual fénix, das cinzas.... do pó.
Nada mais sei a não ser viver um dia de cada vez, cada hora, cada minuto, cada segundo com o fantasma de quem fui e não cheguei a ser para vir um dia saber afinal o que raio sou eu suposto fazer neste ponto pequenino do Universo.
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